A carta de Caminha é considerada literatura?
No dois primeiros séculos de nossa história, houve literatura no Brasil ou do Brasil?
Inicialmente,
o que é literatura? Pois, para que um texto seja considerado literário faz-se
necessário identificar no mesmo, aspectos que caracterize a literariedade.
Segundo o professor e poeta, Ademmauro Gommes, “a literatura é entendida como
arte que trabalha com a imaginação e utiliza o sentido figurado permeado de
metáforas”. Tomando como base esse conceito, a Carta de Caminha não poderia ser
considerada um texto literário, já que ao lê-la não é possível entender algo
além da realidade. Assim também como mostra o crítico literário Rogel Samuel,
quando diz: “ a literatura desrealiza a realidade, para quebrar o monopólio da
realidade em definir e questionar o que é real, porque a realidade concreta
está mascarada, mistificada, alienada”. De acordo com este, a literatura quebra
a realidade absoluta dando possibilidade de questionar o que é real.
Quando se
ler a Carta do Achamento do Brasil, logo no início (linha. 5) “[... aqui não há
de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.]” e no final em suas últimas
linhas, “ E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa
terra vi” percebe-se que se trata de relatos. Esses trechos provam que esta
carta não é literária, Caminha escreveu a realidade, ele não usou metáforas, e
nem foi produto de sua imaginação, mas somente relatou o que viu.
Com base nessa discussão, algumas indagações foram
formadas, no que se refere ao início da nossa literatura. Assim tem-se a
pergunta: Houve literatura do Brasil
ou no Brasil? Quando se trata de
literatura no Brasil, o sentido é uma
obra literária, escrita, desenvolvida no país brasileiro, já quando se fala em
literatura do Brasil, trata-se de uma
obra sobre, a respeito do Brasil. De antemão, é possível falar que houve
literatura no Brasil, mas nos dois
primeiros séculos da nossa história, não há de se falar que existiu literatura do país brasileiro.
A carta de
Caminha, a mais conhecida enviada ao rei de Portugal, e assim como, Narrativa Epistolar de uma viagem 1585-1590 (Pe.
Fernão Cardim), Diálogo sobre a conversão
do gentio 1557 ou 1558 (Pe. Manuel da Nóbrega), Diário de Navegação 1530 (Pero Lopes de Souza), Tratado descritivo do Brasil 1587 (Gabriel
Soares), enfim todas as cartas escritas no primeiro momento da história
brasileira são enquadradas no que podemos chamar de textos informativos, já que
todas são recheadas de informações a respeito da terra, seus habitantes e seus
hábitos. Nada que possa ser visto como literatura.
Tendo em
vista essas informações, sabe-se que mesmo não sendo textos literários, essas
cartas, e sobretudo a carta de Pero Vaz de Caminha serviu como marco no início
da nossa literatura; e falando-se em marco, não se pode esquecer a contribuição dos jesuítas, missionários que
vieram com a intenção de catequizar os índios ,entre eles podemos destacar
Manuel da Nóbrega, Fernão Cardim e especialmente o grande intelectual, José de
Anchieta, este último, embora considerado por Sílvio Romero, em sua História da Literatura Brasileira e
Ronald de Carvalho, em Pequena História
da Literatura Brasileira, como “O mais antigo vulto de nossa história
intelectual”, para o crítico José Veríssimo há uma exclusão de sua contribuição
para a literatura brasileira, mas tratando-se de seus poemas, esse sim é
examinado sob a perspectiva literária.
Quanto às suas composições
poéticas, essas apenas lhe autorizam a menção do nome, por outros e melhores
títulos gloriosos, entre os nossos primitivos versejadores. São tanto
literatura como os diversos catecismos bilíngues escritos no período colonial (
1929:47)
Mas uma vez, o conceito de
literatura é mencionado. Para José veríssimo, as obras de José de Anchieta no
que tange as informações da terra é totalmente excluída de contribuição para a
literatura brasileira simplesmente pela estética.
De acordo com o livro
História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi, (capítulo I, p. 19),
os autos do Padre José de Anchieta são “definitivamente pastorais no sentido
eclesial da palavra, destinados à edificação do índio e do Branco em cerimônias
litúrgicas”, mas seus poemas “valem em si mesmos como estruturas literárias”.
Podemos identificar claramente com os trechos de um auto e um poema:
Auto Representado na festa
de São Lourenço:
Bom Jesus, quando te vejo
Na cruz, por mim flagelado,
Eu por ti vivo e queimado
Mil vezes morrer desejo
Os autos com intenção
religiosa, preso a uma tradição com intuito de ensinar, e a figura de Deus é
enaltecida.
Poema: A
santa Inês
Nossa culpa escura fugirá depressa, pois vossa cabeça vem com luz tão
pura
Já os poemas não tinham intenção religiosa e com uma estrutura de
literatura se destacava por sua linguagem metafórica.
Com isso, conclui-se que mediante análise, levando em
consideração o conceito de Literatura, nos primeiros séculos de nossa história,
houve literatura no Brasil (poemas de José de Anchieta), mas não do Brasil, e
ainda a Carta de Caminha não é considerada literatura, porque não se enquadra
no que tange a perspectiva literária, ela sim, é o documento, certidão de
nascimento do pais brasileiro.
Referências:
Referências:
- · http://www.virtualbooks.com.br/v2/ebooks/pdf/00069.pdf
- · http://www.veredaliteraria.com/2015/11/jose-de-anchieta-5-poemas.html
- · http://www.scielo.org/php/index.php
- GOMMES, Admmauro. Síntese da literatura Brasileira. Recife: Ideia Empreendimentos, 2013.
- BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 43 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

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