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sexta-feira, 7 de abril de 2017

Comentando Literatura


A carta de Caminha é considerada literatura?
No dois primeiros séculos de nossa história, houve literatura no Brasil ou do Brasil?


Inicialmente, o que é literatura? Pois, para que um texto seja considerado literário faz-se necessário identificar no mesmo, aspectos que caracterize a literariedade. Segundo o professor e poeta, Ademmauro Gommes, “a literatura é entendida como arte que trabalha com a imaginação e utiliza o sentido figurado permeado de metáforas”. Tomando como base esse conceito, a Carta de Caminha não poderia ser considerada um texto literário, já que ao lê-la não é possível entender algo além da realidade. Assim também como mostra o crítico literário Rogel Samuel, quando diz: “ a literatura desrealiza a realidade, para quebrar o monopólio da realidade em definir e questionar o que é real, porque a realidade concreta está mascarada, mistificada, alienada”. De acordo com este, a literatura quebra a realidade absoluta dando possibilidade de questionar o que é real.
Quando se ler a Carta do Achamento do Brasil, logo no início (linha. 5) “[... aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.]” e no final em suas últimas linhas, “ E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi” percebe-se que se trata de relatos. Esses trechos provam que esta carta não é literária, Caminha escreveu a realidade, ele não usou metáforas, e nem foi produto de sua imaginação, mas somente relatou o que viu.
                Com base nessa discussão, algumas indagações foram formadas, no que se refere ao início da nossa literatura. Assim tem-se a pergunta: Houve literatura do Brasil ou no Brasil? Quando se trata de literatura no Brasil, o sentido é uma obra literária, escrita, desenvolvida no país brasileiro, já quando se fala em literatura do Brasil, trata-se de uma obra sobre, a respeito do Brasil. De antemão, é possível falar que houve literatura no Brasil, mas nos dois primeiros séculos da nossa história, não há de se falar que existiu literatura do país brasileiro.
A carta de Caminha, a mais conhecida enviada ao rei de Portugal, e assim como, Narrativa Epistolar de uma viagem 1585-1590 (Pe. Fernão Cardim), Diálogo sobre a conversão do gentio 1557 ou 1558 (Pe. Manuel da Nóbrega), Diário de Navegação 1530 (Pero Lopes de Souza), Tratado descritivo do Brasil 1587 (Gabriel Soares), enfim todas as cartas escritas no primeiro momento da história brasileira são enquadradas no que podemos chamar de textos informativos, já que todas são recheadas de informações a respeito da terra, seus habitantes e seus hábitos. Nada que possa ser visto como literatura.
Tendo em vista essas informações, sabe-se que mesmo não sendo textos literários, essas cartas, e sobretudo a carta de Pero Vaz de Caminha serviu como marco no início da nossa literatura; e falando-se em marco, não se pode esquecer  a contribuição dos jesuítas, missionários que vieram com a intenção de catequizar os índios ,entre eles podemos destacar Manuel da Nóbrega, Fernão Cardim e especialmente o grande intelectual, José de Anchieta, este último, embora considerado por Sílvio Romero, em sua História da Literatura Brasileira e Ronald de Carvalho, em Pequena História da Literatura Brasileira, como “O mais antigo vulto de nossa história intelectual”, para o crítico José Veríssimo há uma exclusão de sua contribuição para a literatura brasileira, mas tratando-se de seus poemas, esse sim é examinado sob a perspectiva literária.

Quanto às suas composições poéticas, essas apenas lhe autorizam a menção do nome, por outros e melhores títulos gloriosos, entre os nossos primitivos versejadores. São tanto literatura como os diversos catecismos bilíngues escritos no período colonial ( 1929:47)

Mas uma vez, o conceito de literatura é mencionado. Para José veríssimo, as obras de José de Anchieta no que tange as informações da terra é totalmente excluída de contribuição para a literatura brasileira simplesmente pela estética.
De acordo com o livro História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi, (capítulo I, p. 19), os autos do Padre José de Anchieta são “definitivamente pastorais no sentido eclesial da palavra, destinados à edificação do índio e do Branco em cerimônias litúrgicas”, mas seus poemas “valem em si mesmos como estruturas literárias”. Podemos identificar claramente com os trechos de um auto e um poema:
Auto Representado na festa de São Lourenço:

Bom Jesus, quando te vejo
Na cruz, por mim flagelado,
Eu por ti vivo e queimado
Mil vezes morrer desejo

Os autos com intenção religiosa, preso a uma tradição com intuito de ensinar, e a figura de Deus é enaltecida.

Poema: A santa Inês


Nossa culpa escura fugirá depressa, pois vossa cabeça vem com luz tão pura
            Já os poemas não tinham intenção religiosa e com uma estrutura de literatura se destacava por sua linguagem metafórica.


                Com isso, conclui-se que mediante análise, levando em consideração o conceito de Literatura, nos primeiros séculos de nossa história, houve literatura no Brasil (poemas de José de Anchieta), mas não do Brasil, e ainda a Carta de Caminha não é considerada literatura, porque não se enquadra no que tange a perspectiva literária, ela sim, é o documento, certidão de nascimento do pais brasileiro.


Referências:

  • ·               http://www.virtualbooks.com.br/v2/ebooks/pdf/00069.pdf
  • ·               http://www.veredaliteraria.com/2015/11/jose-de-anchieta-5-poemas.html


  • ·                 http://www.scielo.org/php/index.php
  • GOMMES, Admmauro. Síntese da literatura Brasileira. Recife: Ideia Empreendimentos, 2013.
  •  BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 43 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

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